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Creativity adrift.

2024

28.03.2024

João Cortes, Partner at Openbook Group, shared with Traço magazine his thoughts on creativity.

Read the opinion article below.

 

[text in Portuguese]

Criatividade à deriva.

Imaginemos um universo infinito composto por galáxias, sistemas planetários e objectos até à micro escala em levitação, agrupados pela gravidade num movimento sem fim. A viagem nasce da decisão de avançar e vencer a gravidade inicial rumo ao desconhecido, para depois deixar-se levar pela infinitude de gravidades numa exploração contínua.

A inquietude e o gosto pela descoberta são a primeira ignição – benditas as almas inquietas. Cada lugar de chegada é sempre um novo ponto de partida. O comodismo e o gosto pelo quentinho matam.

O desconhecido mete sempre algum, pouco, ou nenhum medo. O medo da derrota é o principal inimigo…. O (bom) medo tem a virtude de provocar alguma adrenalina. Adoro as pessoas que têm algum medo no passo para o mergulho…. A coragem não tem a ver com a ausência do medo.

A capacidade de enfrentar o desconhecido da travessia e a desinformação sobre o local de chegada. A sobrevivência no caos e a seguir outro caos é uma boa escola.

Imaginemos agora uma alma mais ou menos cândida, mas curiosa, interessada e atenta, com sentido crítico e apenas adormecida… quando dorme. Esta alma alimenta-se a toda a hora daquilo que toca, vê, saboreia, cheira e ouve. Só uma alma experimentadora é que consegue ganhar experiência. Já não sei quem é que dizia que cultura é aquilo que fica depois de se esquecer aquilo que se aprendeu. Acrescento que experiência é aquilo que fica depois de se esquecer o que se experimentou.

Saber apreciar abre novas janelas. A criatividade não se força… é qualquer coisa que se aguarda… como abrir uma janela e esperar que ela apareça. Quando forçada consegue ser destrutiva.

Mas a experiência essa sim deve ser forçada todos os dias, a toda a hora, com tudo e com toda a gente. A experiência é ‘madre’ da criatividade. A experiência torna-se inócua… desculpem: tóxica! se não existir sentido crítico, curiosidade, gosto de querer saber e gosto de querer fazer e, muito importante: se não forem estimulados os 5 sentidos.

O contágio com a matéria – mediado pelos sentidos e experiências anteriores – fundamenta a vocação e a formação do arquitecto, na medida em que todo o seu trabalho intelectual futuro terá por missão a elaboração de formulações que visam reconstruir matéria, de acordo com uma função, um contexto e um objectivo muito concretos. O urbanista apenas trabalha a uma escala maior e quando assim não é – quando o poder de abstração descola do cheiro da matéria – não vai conseguir humanizar a cidade.

Estava a escola Bauhaus certíssima ao basear a formação dos arquitectos na estreita ligação entre as várias artes e ofícios, promovendo o contacto e a experiência em primeiro lugar. Levando esta estratégia ao extremo de adiar o estudo da História para fases posteriores, para não influenciar/condicionar no início a capacidade e a disponibilidade para entender a crueza da matéria.

Esta ‘fome´ de ligação à matéria através das mais diversas formas, como sejam o desenho, a escultura e todas as artes e ofícios, é um tópico tipicamente mais associado ao estímulo da criatividade no território da arquitectura e das artes mas apenas porque – aqui – existe justificadamente uma expectativa com carácter de exigência sobre a criatividade. Mas o poder da criatividade em termos genéricos não deve ser nem é exclusivo das artes…. aplica-se a todas as acções humanas na medida em que, no limite, é um alargador de horizontes, de círculos e de poliedros em que está desenhado o nosso cérebro.

A importância da co-criatividade. Na realidade, se a criatividade nasce de uma provocação em que o criador convoca uma infinitude de estímulos externos – a experiência – porque não convocar também para o acto criativo outros além de nós? Não é esta uma fórmula inteligente de aumentar o espectro de estímulos que estão na génese de um acto criativo?

Um líder que desaproveita esta dádiva tem outros assuntos, noutros departamentos, por resolver.

 

Article previously published in Traço magazine.

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