Skip to main content

Hand drawing in an age of technology

2024

04.04.2024

Marta Castillo, Architect at Openbook, wrote for Trends magazine about the importance of hand drawing in an age of technology.

“The pencil is an extension of our hand, and every time we sharpen it we can choose our attitude towards the page (…)”.

 

Read below the full article in Portuguese:

Como arquitetos, sabemos que o desenho é a nossa linguagem, a nossa forma de comunicarmos. É esta a razão pela qual o desenho está ligado ao raciocínio: podemos aprendê-lo, aperfeiçoá-lo, e em tudo isto existe uma parte que nos traz uma certa satisfação e, ao mesmo tempo, nos provoca, tal como acontece em qualquer outra disciplina artística.

Esta, a nossa linguagem, faz-nos responsáveis pelas toneladas de peso contido no instante em que o lápis se põe em contacto com uma folha. É o nosso património vivo num traço que, como uma afiada faca, atravessa a pele e fica. Desde o momento em que o traço aparece passa a ser da nossa responsabilidade, porque só nós sabemos o que acontece entre a linha e o papel. O lápis é uma extensão da nossa mão, e sempre que o desembainhamos temos a possibilidade de escolher a nossa atitude perante a folha: a nossa predisposição a ser formais e mais corretamente semânticos; ou a ter a genuinidade de só nos querermos expressar segundo o que sentimos.

Não é estranho para ninguém aquele gesto, quase inocente, de desenhar enquanto estamos ao telemóvel. A nossa mão atua livremente e define a sua própria direção, sem termos de nos deter a pensar. Nesse momento estamos de facto a prestar atenção, mas não conseguimos canalizá-la em nenhum gesto ou linguagem, nem sequer não-verbal: não temos ninguém à frente e por isso continuamos com o nosso traço. Só quando dentro desta chamada telefónica surge um dado ou um ponto importante, é que o captamos e escrevemos, por vezes até com um retângulo à volta. O nosso traço focou-se e a nossa mente encontrou o ritmo do lápis. Neste exemplo tão banal, estamos a falar da ligação que a mão tem com o raciocínio. Pode acontecer por vezes o nosso traço ir mais depressa, tal como quando estamos a ler ou a escrever, por vezes é difícil acompanhar a nossa voz interior com o que aparece no papel. Eis aqui uma oportunidade de nos comprometermos com o treino no desenho.

Do mesmo modo, se quiséssemos desenhar o que temos neste momento à nossa frente e o fizéssemos com a mão com que não estamos habituados a desenhar, seria certamente um traço mais rápido do que se o fizéssemos com a mão contrária. Provavelmente prestamos menos atenção na transcrição dos detalhes no papel quando desenhamos com a mão dominante do que com a outra, porque com esta última temos de parar para pensar e coordenar a nossa cabeça com a nossa mão. Esta coordenação não deixa de ser um treino, e quem às vezes não precisa de uma máquina para treinar?

Desenhar não deixa de ser um exercício, um processo onde damos forma a um conceito e libertamos uma ideia que estava dentro de nós. Estamos a tratar de dizer ao mundo como vemos ou queremos as coisas, como já acontecia com as pinturas rupestres, onde as paredes das cavernas eram um registo de como era visto o mundo naquela altura.

Projetar no papel obriga-nos a recorrer às nossas experiências, a sentirmo-nos confortáveis e firmes para abraçar a ideia de que agora somos donos. É por isto que podemos falar do desenho em termos de pensamento gráfico, porque quando desenhamos estamos a pensar, apoiados pelos traços que vão aparecendo e fundamentam as nossas decisões de projeto. Podemos falar então em simbioses entre o ato de pensar e o ato de desenhar.

Chegados a esta altura, parece necessário esclarecer alguns pontos importantes sobre o tema. O primeiro e mais evidente para nós, arquitetos, é que o desenho é uma coisa e o projeto de arquitetura é outra. E, no meio, somos nós quem decidimos quão estreita queremos esta relação.

Por outro lado, dentro do desenho arquitetónico podemos encontrar variantes, consoante a sua função e objetivo final. Em traços gerais, podemos falar de três tipos de desenho: de descrição, de conceção e de comunicação. No primeiro, queremos descrever o que estamos a ver, ou apenas deixar um testemunho num papel. No segundo, estamos a começar a criação de algo: através do lápis com traços mais fortes, mais suaves, manchas, sombreados, vamos construindo uma ideia de uma forma ainda não muito rígida, mas ao mesmo tempo mais intencional do que no primeiro tipo. Por último, para comunicar e apresentar o processo, recorremos a um suporte com informação milimetricamente desenhada.

Se falamos de variantes dentro desta disciplina, é também lógico falar do surgimento da tecnologia. Desde o século passado, podemos aceder a diversas máquinas e ferramentas como computadores, tablets, lápis digitais. Mas, como com cada nova etapa na história, com a chegada de uma novidade chegam também inquietudes, medos e receios.

Agora, parece-nos um bocado ridículo questionarmo-nos se grandes arquitetos como Foster, Siza ou Zaha Hadid eram melhores arquitetos antes ou depois da máquina. A realidade é que a sua arquitetura continuou a ser a mesma, apenas mudaram as formas de a fazer. De certa forma, a tecnologia pode influenciar a forma como desenvolvemos as coisas, mas não o que desenvolvemos. A informática não é cultura: a informática é a infraestrutura da cultura, disse Tierno Galván.

A revolução tecnológica veio para mudar o processo de trabalho. As referências visuais já não são aqueles livros e revistas: agora acedemos às referências visuais muito mais rapidamente e, até certo ponto, sem o sentido da escolha e da responsabilidade. Há todo um mundo de possibilidades, e isto pressupõe certas mudanças nos processos de hierarquização e seleção das referências formais no desenho e no processo criativo.

A ideia, a conceção e criação de um conceito é um ponto que, como arquitetos, deveríamos conseguir atingir. O uso intensivo da tecnologia persuade-nos a desaproveitar esta oportunidade de sentir o projeto como algo visceral. O tempo em que somos donos do lápis é todo um tempo em que somos abençoados com a capacidade de tomar decisões razoáveis, firmes e quase carnais. Desenhar não é só uma conversa entre o lápis e o papel, mas um rito entre nós e o espaço-tempo. No caso da máquina, fazer um clique pressupõe apenas um instante e, desafortunadamente, traduz-se num raciocínio perto do zero. Produz-se um desligar físico e mental do elemento ideia como ponto central do processo criativo e ficamos no limbo de não saber quem é realmente o portador da ideia. A realidade digital escapasse de nós: não nos pertence, não conseguimos passar-lhe um papel de esquisso para estudar outras possibilidades. No desenho à mão existe este momento: colocamos sucessivas camadas por cima do desenho arquitetónico até formar uma espécie de palimpsesto gráfico. O processo da máquina é diferente, embora conseguimos produzir mais rapidamente outras hipóteses de uma realidade. O processo evolutivo é menos palpável e o recurso de apagar é menos laborioso.

Ao falar em tecnologia é também importante distinguir as diversas formas em que nós, como arquitetos, nos encontramo com ela. Provavelmente, um dos processos tecnológicos mais conhecidos na área da arquitetura é o desenho assistido por computador. Nos últimos tempos, o CAD (Computer-Aided Design), e com ele também a metodologia BIM (Building Information Modeling), foram ganhando espaço dentro dos escritórios de arquitetura.

Há um ponto interessante no desenho com este tipo de tecnologias: na produção de qualquer elemento arquitetónico, existe a possibilidade de se acrescentar parâmetros. Onde antes só havia duas linhas desenhadas que definiam uma parede porque assim estava estabelecido por consenso, agora estas duas linhas contêm informação e dados. Com o método à mão iremos sempre conseguir obter o produto final em forma de planta, alçado ou corte, mas com a tecnologia, conseguimos ir mais além na disponibilização de dados, e seria uma loucura não ir à procura do aproveitamento total desta ferramenta.

O desenho assistido nasceu muito orientado para o desenho numa fase de produção e finalização, mas a verdade é que numa primeira parte do processo arquitetónico também existem ferramentas de caráter tecnológico e digital. Nos últimos tempos, assistimos ao aparecimento dos tablets de desenho e das canetas digitais, com o objetivo de serem pontes entre a nossa mão e tudo o que acontece no ecrã. É evidente o constante desenvolvimento deste tipo de elementos e a sua intenção de ir ao encontro do nosso verdadeiro lápis de mina, o que de alguma forma estimula o cérebro e nos transporta para uma das atividades pré-históricas do ser humano.

Não sabemos muito bem porquê, mas passar à frente de uma papelaria desperta em nós uma sensação de alegria misturada com prazer. Aqueles bocados de folha para experimentar as minas, as cores, sempre cheios de traços que nunca são suficientes. A razão é óbvia, todos gostamos de experimentar e de envolver ao máximo os nossos sentidos para criar uma experiência, especialmente quando nos lembra um período da nossa vida em que começámos a usar este peculiar instrumento, umas vezes cilíndrico, outras hexagonal.

É por isso que nesta era tecnológica se otimiza cada vez mais a sensibilidade das ferramentas, com o fim de estreitar a fissura entre a experiência de usuário digital e analógico. Mas não é uma tarefa fácil: as cores através do ecrã têm outros matizes e regem-se com códigos próprios, as técnicas diferem, os formatos de folhas com proporções e escalas tornam-se um novo desafio.

Como profissionais desafiamo-nos a ultrapassar estas situações, mas por vezes é difícil deixar de lado a ideia de que com o desenho à mão – desde os tempos da Antiga Roma – éramos capazes de executar arquitetura desde o zero até à construção do elemento. Era possível encadear o processo todo apenas com as nossas mãos.

Com a tecnologia é diferente, a sua amplitude e precisão converte-a num instrumento de escala pormenorizada. Digamos que, para uma ilustração de conceito, é certo que não usaremos o mesmo software que para a consolidação do produto final. Existem programas e métodos muito específicos para cada uma das tarefas e isto pode suscitar problemas de enfoque e descaracterização do processo geral, ao saltar de uma aplicação para a outra.

É paradoxal como muitas vezes à frente do computador com estes softwares tão potentes, ante um desafio de modelagem, temos de parar, ir à procura de um papel de rascunho e desenhar não só num nível volumétrico e formal, mas também de forma pragmática, para perceber e desenvolver o processo da máquina na nossa cabeça. É parecido com um ensaio prévio em voz alta, e resulta em 99% das situações. Quanto mais sofisticada é a tecnologia que usamos, mais precisamos de desenhar à mão. Os pormenores surgem na cabeça e depois no ecrã, o lápis concede a capacidade de trazer o problema mais perto de nós. Se calhar por familiaridade, se calhar por espontaneidade, traz-nos confiança.

Mas a tecnologia está cá para nos ajudar. Se há 20 anos para desenhar um quadrado podíamos fazê-lo à mão, e em paralelo havia já quem começava a conseguir desenhar quatro linhas em CAD, hoje em dia só precisamos de saber dizer corretamente o que queremos representar com estes quatro traços ou com este espaço quadrado e a IA pode fazê-lo por nós.

Quem não quiser abrir os olhos perante estes novos tempos, está a fechar a porta ao futuro da arquitetura. Por isso é importante estarmos preparados para assumir esta mudança, porque neste preciso momento alguém, algures, poderá estar a começar um projeto para uma nova cidade do futuro com o uso de uma tecnologia mais avançada. É também nossa responsabilidade estarmos informados e educarmo-nos para sobrelevar estas transições. Quem o viveu, sabe o desafio que foi quando apareceram os softwares de desenho por computador, mas é claro que para nós isso hoje representa uma clara poupança no tempo de produção.

E aqui revela-se qual é o ponto: no processo, o momento em que nos encontramos guarda relação com a efetividade da ferramenta que usamos. É importante saber o momento em que a mão humana tem de ser rendida pela máquina, e é importante saber diferenciar entre uma fase prematura de conceito e uma fase avançada de produção. Temos de dar a cada ferramenta o posicionamento que ela tem.

Como cabeças pensantes, deveríamos articular o caminho para que estas ferramentas e inteligências artificiais possam desenvolver o processo mais mecânico e que menos precisa de criatividade, para assim nos podermos focar no ato de criação. Porque nós criamos desde a experiência, e a máquina cria desde a referência.

O desenho à mão e o desenho através da tecnologia devem coexistir como uma responsabilidade que temos de assumir enquanto arquitetos, para abraçar o nosso legado e deixar que o nosso património perdure. Deixar que a mão dê o sentido mais humano aos nossos desenhos e, a tecnologia, o mais eficaz.

 

Article previously published in Trends.

Leave a Reply