A building that reflects me with Maria Aráujo
28.11.2023
French vernacular architecture “in profile”.
Paul Strand was a very special American photographer who, during the 1950s, ventured into rural France, medieval France, vernacular France, talkative France, sometimes alpine, sometimes mimosa, an accidental France, the setting for the tragedy of customs in Annie Ernaux’s La Place and the ecstatic tourdion, which at the time, although already in rapid decline, was still largely untouched by the unforeseen arrival of the present. Paul Strand’s poetic gesture was simultaneously the chisel of a sculptor and the study of a cultural anthropologist.
It is not the isolated construction, per se, that seduces me in this image, nor the picturesque composition or the play of light. The perspective is not original but simply rediscovered by the photographer. Many before him intuited it and many others carved it out, and all of them were haunted by the timid desire for a rooted and unassuming existence. The mountainous backdrop, static, grave, the rugged back and rough texture, the white veil softened by snow on the black and silent boulders, the geological morphology battered by the frost of Time. In all that, in literary terms, describes the elemental and mineral reality of the landscape, I also find an appropriate juxtaposition with the built object.
Everything is ready to return to its natural state, aware of its end even before its beginning. It is the curious awareness of the imminent ephemerality and volatility of all matter that produces something very similar to permanence. Any resemblance to reality is not purely coincidental.

Um edifício que me reflete com Maria Aráujo
A arquitectura vernacular francesa “de perfil”.
Paul Strand foi um especialíssimo fotógrafo americano que, durante a década de 1950, adentrou uma França rural, a França medieval, vernacular, bavarde, ora alpestre, ora mimosa, uma França acidental, palco da tragédia de costumes do La Place de Annie Ernaux e do tourdion extático, que à data, embora já em acelerada ruína, se encontrava ainda, em grande parte, por liquefazer pela chegada imprevidente do presente. O gesto poético de Paul Strand foi simultaneamente a cinzelada de um escultor e o estudo de um antropólogo cultural.
Não é a construção isolada, per se, que me seduz nesta imagem, nem tão pouco a composição pitoresca ou o jogo de luzes. A perspectiva não é original mas simplesmente redescoberta pelo fotógrafo. Muitos antes a intuiram e outros tantos a entalharam, e a todos assomou a vontade tímida de uma existência enraizada e sem espalhafato. O pano de fundo montanhoso, estático, grave, o dorso escarpado e a textura rugosa, o véu alvo e amaciado de neve sobre os pedregulhos negros e silenciosos, a morfologia geológica golpeada pela geada dos Tempos. Em tudo aquilo que, em termos literários, descreve a realidade elementar e mineral da paisagem encontro também adequada justaposição ante o objecto edificado.
Tudo está pronto para regressar ao seu estado natural, ciente do seu fim antes mesmo do seu princípio. É a curiosa consciência da iminente efemeridade e volubilidade de toda a matéria que produz algo muito parecido com a perenidade. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.
