A gestão de projetos de arquitetura em trabalho remoto

Opinion Article
July 2020 -
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A gestão de projetos de arquitetura em trabalho remoto

O mundo como o conhecíamos mudou. Com pouca margem para antevisões ou preparação, entrámos numa realidade que veio abalar o âmago das mais diversas esferas públicas e privadas. O dado por garantido deixou de o ser, a norma foi forçosamente reajustada a uma escala global e um leque de desafios e de oportunidades surgiu pelos diferentes setores de atividade. A arquitetura não é exceção.

Um novo paradigma tem-se vindo a afirmar perante o cenário imposto, pautado por novos formatos e dinâmicas de negócio, de gestão, de trabalho e de comunicação. Entre as várias vertentes que emergiram, está a transição da gestão de projetos e de equipas para um regime full remote. Trata-se de um processo essencial ao funcionamento de qualquer organização que, encarado de forma estratégica, representa um conjunto de oportunidades para a evolução da capacidade de resposta e do domínio de ferramentas tecnológicas das mesmas.

Metodologia, autonomia e união
Desde uma comunicação exímia com o cliente, com entidades oficiais (câmaras, ANEPC, etc.) ou com as especialidades associadas, sem esquecer toda a equipa alocada, a dinâmica da gestão de projetos em arquitetura implica uma verdadeira coordenação a 360º. A eficácia no controlo do conjunto é essencial e reside no elo de ligação entre as diversas partes intervenientes nos projetos, conseguido através desta permanente comunicação entre a equipa e a sincronização total das tarefas.

A par com as metodologias de cada atelier, a forte relação interpessoal entre as equipas é, inegavelmente, essencial para ser mantida a eficácia e a capacidade de partilha e de entrega. A adaptação ao novo modus operandi é feita de parte a parte, com um especial cuidado na coordenação e no entendimento. Medidas como horários flexíveis, para que os colaboradores possam gerir o trabalho em conjunto com o apoio à família, a par de uma constante comunicação e acompanhamento das equipas por parte de coordenadores e partners, são exemplos que marcam a diferença.

O lado A da tecnologia
Nunca a agilidade, abertura e capacidade de adaptação a novas formas de trabalhar foram tão imperiosas. Cada colaborador tem de ser capaz de dominar as ferramentas tecnológicas detidas pelo respetivo atelier, designadamente os softwares de gestão de projeto, de produção e de comunicação, o que constitui também parte do sucesso de transição para o regime remoto.

No nosso caso, o facto de já trabalharmos há anos em REVIT e ambiente colaborativo, ajudou muito na transição e digitalização total do nosso workflow. O recurso a servidores virtuais como o BIM 360 DESIGN permitiu-nos ter grandes equipas a trabalhar no mesmo projeto em simultâneo, sem constrangimentos.

Com efeito, a adoção do trabalho colaborativo em cloud permite um aumento exponencial da funcionalidade remota das metodologias de trabalho, já que oferece às diversas partes intervenientes no projeto a capacidade de trabalhar em tempo real, sem implicar trocas e envios de ficheiros pesados. Pioneiros na adoção do REVIT em 2008, estamos novamente na linha da frente na adoção do trabalho colaborativo em cloud. Esta mudança em tempo de crise foi mais um passo para o aperfeiçoamento desta metodologia de trabalho.

Ainda assim, na arquitetura o trabalho presencial tem um valor acrescentado intangível e que não é substituível em regime remoto. Trata-se da relação que cada colaborador desenvolve com os restantes e a informação que circula informalmente, os desbloqueios e as chamadas “conversas informais de corredor” que aceleram o crescimento das equipas e a qualidade das soluções. Também o processo criativo vive muito de particularidades como o desenho à mão livre, onde a partilha e procura de soluções com um papel à frente e um diálogo de apoio faz diferença. Quando feito online, ainda que as melhores tecnologias estejam presentes, há uma perda inevitável de valor acrescentado.

No final, importa que cada atelier desenvolva a capacidade de adaptar a sua metodologia base à especificidade de cada projeto e das pessoas envolvidas. Numa altura que pôs em evidência as baselines e o espírito que caraterizam as organizações, devemos encontrar nos desafios e nas adversidades a margem para crescimento e melhoria. Porque é já hoje que, em conjunto e com as nossas equipas, começamos a construir o futuro pós-pandémico. Cabe-nos torná-lo ainda melhor do que o passado.


Pedro Veiga de Macedo, Coordenador de Projetos na OPENBOOK Architecture

* Previously published in Jornal Construir.
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